quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Dobra o número de casais sem filhos

Em dez anos, as famílias brasileiras mudaram de cara. E a lista de arranjos vai crescendo. Nessa tendência, os casais sem filhos em que ambos trabalham começam a ganhar espaço na estrutura familiar brasileira. Em 1997, eles eram 997 mil. Em 2007, esse número pulou para 1,94 milhão, ou seja, praticamente dobrou, como mostrou a Síntese de Indicadores Sociais, divulgada nesta quarta-feira pelo IBGE.

Chamados de dinks, que significa em inglês double income and no kids, ou seja, dupla renda e nenhuma criança, esses casais despontaram nos Estados Unidos no começo dos anos 90. Por opção, privilegiam a carreira e o lazer. Por isso, são um fenômeno da classe média. Essas famílias no Brasil têm renda domiciliar per capita de 3,4 salários mínimos, R$ 1.292 em setembro do ano passado, quando os pesquisados foram atrás dos dados. O dobro dos R$ 642,70 da média das famílias.

- Está crescendo esse tipo de arranjo, típico de sociedade industrializada. Esse novo modelo está cada vez mais presente, principalmente na faixa de até 34 anos - disse Ana Saboia, coordenadora-geral da Síntese de Indicadores.

Para Elisabete Dória Bilac, socióloga da Unicamp e estudiosa das mudanças nas famílias brasileiras, o casamento com filhos está deixando de ser um padrão obrigatório para as famílias. 

- Parcela importante está ligada à queda da taxa de fecundidade, junto com as mudanças dos modos de vida, principalmente para a mulher. Hoje, ela não trabalha apenas para compor a renda da casa; tem carreira. O casamento com filhos deixou de ser um padrão obrigatório. Isso começou a ser percebido nos Estados Unidos nos anos 90. Aqui chegou mais tardiamente, mas com muita força.

Decisão de não ter filhos ainda causa estranheza

O consultor Ricardo Aldana, de 37 anos, e a mulher Simone, de 30 anos, analista de qualidade, resolveram não ter filhos. Depois de enfrentar a resistência dos pais, ainda sofrem com a estranheza da sociedade diante dessa escolha. Com renda entre R$ 6 mil e R$ 7 mil, ambos têm curso superior.

- As pessoas nos olham abismadas quando falamos isso. Adoramos crianças, mas não vemos uma criança na nossa realidade. Trabalhamos e viajamos muito. No nosso dia-a-dia, criar um filho seria muito difícil. É uma decisão irreversível - diz Ricardo Aldana.

A reação é grande. A decisão de Aldana de fazer vasectomia esbarrou na resistência do médico. Essa reação é natural, na opinião da socióloga Elisabete. Qualquer arranjo familiar diferente acaba enfrentando oposição no primeiro momento:
- As pessoas têm dificuldade de lidar com a diferença.

Ricardo e Simone são o casal típico desse conceito sociológico. Mas há outros motivos para estar nessa condição, como adiamento da maternidade. Nesse grupo entram Hedlane de Araújo Barbosa Lima, de 33 anos, e Genildo Dias, de 30. Eles optaram por investir pesado no trabalho para, então, pensar em filhos.

Donos de três empresas, duas de vendas de instrumentos musicais e outra de locação de equipamentos audiovisuais, Hedlane e Genildo se dedicam até 14 horas por dia ao comando dos negócios. A renda mensal média da família é superior a R$ 10 mil, e um bom patrimônio já está assegurado por causa das empresas, que já existem há cerca de oito anos. Mas a intenção do casal é melhorar ainda mais a condição financeira para dar todo o conforto aos herdeiros. 

- Nós queremos ter filhos, ainda não aconteceu por falta de tempo. Dá muito trabalho e é difícil conciliar com a profissão, principalmente para quem administra negócios. Mas nosso desejo é ter dois filhos - explica Hedlane, que tem formação superior incompleta em administração e marketing.

Além do adiamento da gravidez, há outros fatores por trás da formação desses casais, na opinião de Elisabete. Um dos principais é o financeiro.

- Para a classe média, que tem dificuldade de usar os serviços públicos de saúde e educação, fica muito caro criar um filho. A família tem de trabalhar muito, e isso acaba desestimulando a decisão de ter filhos. 

Fonte: O Globo 

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